Saturday, December 20, 2008

Nós


O outro sem eu não poderia ser do outro assim como o outro do eu não poderia ser o meu outro eu. Instintivamente crio e mantenho um eu que por vezes não é o meu, pois o meu verdadeiro eu não é aquele que os outros consideram o meu eu. Promover o meu eu para com os outros eus, dificultará a existência e permanência do eu que pretendo ver como só meu. Partilharei então este eu com o teu eu e juntos serão algo que não poderá ser nem teu nem de eu, portanto, este eu nunca será só meu.
O, Meu não Eu

Monday, December 15, 2008

Egoísta



Não dá.
Estou a fazer um enorme esforço mas as palavras não me saem.
Consigo pensar como se nada fosse.
Está pesado. Se o descrevesse seria esguio, estreito e pouco volumoso. Sem criar rugas torço-o ao contrário do que queria e uma ideia é todo o suco que lhe retiro.
Tem luzes de uma intensidade e brilho semelhante mas é bem morbido e escuro. Se lhe pudesse atribuir um paladar seria algo doce mas com um travo salgado e não áspero. Mantem-se. Apesar dos tantos dias, talvez mesmo meses que já passaram contudo parece que vai aumentando minuto após minuto. Que descontrolo, que palidez amarga e vontade de não digerir. Um recipiente de vidro azul quase branco não seria suficiente para o conservar, quero mais, que faça mais sentido e que seja só meu. Invisível a olho nu, nu a olho visível mas só meu e sempre exposto.
Quero-o só para mim! Quero mais.
Não dá.

Thursday, December 4, 2008

Abre os olhos


Um único cubo negro, cheio de pontos da mesma cor, pintado em tela de fundo preto assinado apenas com duas iniciais e um ponto a tinta da china.
Neste quarto escuro, com um tripé a noventa centímetros do solo é feita uma fotografia a preto e branco desta obra.
O artista, um jovem invisual, observa o fotógrafo que contratou e atentamente ouve o tão desejado "clic" e imagina a imagem recém entrada pelo obturador.
Um sorriso seguido de suspiro roco, um alvoroço de líquidos e um cheiro semi tóxico a algo. Três marteladas e um grito.
32 moedas!